Eu preciso fazer uma confissão: eu tenho preconceito contra Brasília.
Peço desculpas para todos os cidadãos de bem dessa cidade. Aqueles que batalham honestamente por seu salário. Aos jovens que estudam para ter e fazer um futuro melhor. Aos médicos que salvam vidas e curam as pessoas que moram na capital federal.
Mas acima de tudo tenho que pedir desculpas aos homens que trabalham de terno e gravata em Brasília. Advogados, empresários, mâitres e garçons, todos essas pessoas que trabalham de maneira correta e decente.
Peço desculpas porque todas as vezes que chego a Brasília e vejo um homem de terno e gravata acho que ele está aqui por um motivo escuso. Se ele está no aeroporto é porque veio fazer um negócio ilegal. Se está jantando com outo vestido da mesma maneira, é porque estão fazendo um conchavo. Se falam sussurando então, aí tem, com certeza.
Se vejo senhores distintos entre sorrisos e gargalhadas altas, acredito que estão rindo da cara daqueles que passaram para trás. E se depois de toda a cerimônia ainda tem aquele tapinha nas costas, aí tem, com certeza.
Não consigo olhar para tanta gente de bem sem ter um pensamento de desconfiança por causa daquela roupa arrumadinha. Talvez, se eu olhar para mim mesmo no espelho, vestido com minha roupa de trabalho, vou achar que ali tem, com certeza.
Infelizmente nossos políticos trabalham de terno e gravata. Alguns abusam do mal gosto e das combinações cabulosas, outros vestem-se com finesse e elegância, mas estão todos de terno e gravata. Os bons e os maus políticos, todos, de terno e gravata. Só as mulheres se salvam da combinação, com seus tailleurs e roupas socias, porém, elas também não escapam da praga endêmica da corrupção. Se algo der errado ( o que é raro ) renuncio aqui, fujo da cassação e já já eu tô de volta. É o velho ditado às avesas: Devo, nego, e se puder não pago.
E não é só desse mal que muitos dos nossos políticos padecem. Soberba não falta naquele congresso. A sensação de ser inatingível, a prepotência monumental. Se acham melhores do que qualquer cidadão. Se um deputado é agredido na câmara, o que acontece? A pessoa certamente vai presa. E se um deputado agride um cidadão, acontece alguma coisa?
Hoje, o digníssimo deputado Paulo Magalhães ( PSD - BA ), além de me dar um empurrão e logo depois cotoveladinhas às escondidas, como uma criança brigona da quinta série, deu um tapa forte e agressivo em nosso microfone, o que acabou destruindo o aparelho e incapacitando nossa equipe de seguir o trabalho. Não fiz nenhuma pergunta agressiva ou incoerente, vocês verão na segunda-feira. Peguntei o que qualquer cidadão perguntaria. O que vai acontecer com o nobre deputado depois da agressão? Muito provavelmente nada.
Saiba deputado, que o que o senhor fez, é quebra de decoro parlamentar. Além da quebra do nosso equipamento. Voce nos deve um microfone de mão sem fio. Custa caro. Mas tenho certeza que o senhor tem dinheiro para pagar o conserto ou até mesmo um novinho em folha.
Mais uma vez peço desculpas aos moradores dessa linda cidade. É por causa de senhores como esse que acabo olhando torto pra tanta gente aqui em Brasília. E me deixa ainda mais triste achar que essa situação não vai mudar tão cedo…